segunda-feira, 2 de julho de 2007

Preciso urgentemente de um ponto de partida para contar essa anedota.Penso,penso,mas nada vem.Por horas.Por isso resolvi subverter alguns princípios cronológicos da escrita e mencionar apenas que "Você entrou".
Você entrou ...na mesma sala onde eu me encontrara.Eu,ali,nu e de braços abertos,como sempre,sem surpresa ;a luz amanhecida do sol esbarrando nas minhas costas ,me transformando em uma silhueta parcial.Eu ali,esperando por você,como sempre,mesmo antes de te conhecer.Braços abertos.Sempre de braços abertos.As poucas vezes que fechei-os em sua presença foi pelo fútil motivo de conservar um inútil orgulho,que julgava ser algo necessário,algo que me faria companhia na sua ausência.Eu estava errado.Percebi isso cedo,ao menos.O orgulho era cólera.Abandonei-o logo para que não anuviasse mais ainda o quebra-cabeça dos meus sentimentos.E é por isso que mantenho meus braços abertos.Pra te receber sem orgulho.Para ser recebido sem confusão.Para que entremos um no outro como sempre,na pureza,na sinceridade plena.
Você para na minha frente,me olhando com olhos gigantes,azuis.Eu olho de volta ,tentando enxergar atrás dos seus olhos,dentro de sua cabeça,onde o labirinto de sentimentos e pensamentos que me confunde é camuflado pelos seus longos cabelos da cor do pôr-do-sol.Esse labirinto é seu,e só seu,e o meu cérebro já processou esta informação,mas o meu coração chora por não conseguir ( ou pensar que não consegue ) a chave para a entrada dos seus corredores.Uma indagação que não lhe compete ,mas o coração é tolo,como todos são, e não alia-se ao cérebro em uníssimo.Tudo o que pode fazer então é esperar que o cérebro insista em lhe dizer que está tudo certo,que em menos de cinco segundos você vai entrar no meu abraço ,e que mais uma vez o mundo lá fora deixará de existir.O coração então lembra das sensações que transmitiu ao cérebro para que este também se acalmasse,mas isso em outros tempos,existentes hoje somente na memória.O coração lembra da sensação do seu toque;de como se assemelha a enfiar os pés desnudos na terra gelada,sentir o barro entrando por entre os dedos em um carinho transcendental.Também se lembra do seu cheiro e da paz que ele proporciona ao ser inalado pelo meu nariz,e você está dentro de mim em essência,todas as partes do seu corpo,o cabelo,o pescoço,os seus lábios,as suas cochas e também as partes eróticas que serão mencionadas,talvez,em um outro texto.O coração se recorda da música composta apenas pelo som das suas palavras;uma música de você,de nós dois,que só eu ouço,com todas as notas existentes trilhando uma melodia ímpar e particular.
Ao concluir estas memórias você já está no meu abraço ,e eu estou chorando de alegria, e você dá aquele sorriso que pensa que eu não consigo ver apenas pelo fato de você ser baixinha,mas os músculos do seu rosto reagem contra o meu peito e eu consigo então perceber o sorriso que fala "Tsc,não precisa chorar,eu estou com você".E eu me sinto feliz e completo,e todo o resto fica fácil;todos os soldados que se põe contra o nosso amor viram soldadinhos de chumbo,todas as ventanias viram brisas que aproveitamos para nos abraçar,toda a tempestade se transforma em uma sublime chuva que ouvimos bater no telhado da casa enquanto fazemos amor.E nós nos deitamos.E tudo começa com um beijo e dois pares de mãos:as minhas na sua cintura e as suas nos meus ombros.E eu te beijo,e te cheiro,e entramos um no outro,nos perdendo numa noite eterna,dois corações em um ritmo sincronizado.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Um Copo de Bebida

Um copo de bebida. Apenas isso e nada mais.Imóvel sobre a mesa, soberano, me fitando com olhos etílicos,aguardando queimar-me as veias murchas.
Escapa-me a classificação da bebida, seu nome, que já não importa mais; todas supõe uma promessa de veneno, morte lenta, inebriação. É apenas um copo de bebida que me entra como um Deus-Ácido, dissipando justiça divina dentro do servo-verme.Uma bebida simples, à toa, própria de sonâmbulos desesperados; uma bebida comum, banal, de alcance universal, me faz esquecer lá fora, me faz esquecer o meu dentro, o meu vazio completo, a minha saúde estúpida.Copo de bebida, me omite a memória da minha rainha, me livra dos espinhos, da agonia da consciência,da dor sofrida, mesmo que por instantes, mesmo que me transforme num ser insignificante, rastejando pelo chão, coisa que, aliás, não é das práticas mais patéticas do homem.
Um copo, um veneno.Um amor recíproco, com tantos problemas quanto um relacionamento deve ter.Dependência, paixão, brigas, ausência, traição.Me beija a boca seca e derrama o cólera sobre meu peito.Amputa meu cérebro semi-morto, degola minha razão e perspicácia, mutila minha alma e existência.Me deixa ignorante ao alheio e ao receio.Prepara as cordas no pescoço, arranja o tombo.Falece com o restante das minhas vontades e me banha em negra tinta.
A análise intensa da relação homem-copo é exaustiva. Eu bebo o gole morto.Me puxam sombras para o mundo do saber alcoólico.Não regresso ao dia sóbrio.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Expresso

Acordo em algum lugar e, ao mesmo tempo, em lugar algum.
Apesar de estar dentro de um trem em movimento ,a sensação é de uma incrível e nunca experimentada lacuna existencial.Estou sentado em um banco duplo ocupado só por mim.Olho ao redor um tanto assustado .Não tenho qualquer lembrança do que aconteceu antes de eu me encontrar aqui.Os primeiros pensamentos que me visitam são:“Como vim parar aqui?”,”O que vim fazer aqui?”,”Por que estou dentro de um trem?”,mas os pensamentos logo me fogem,não sei por que.O trem acomoda várias pessoas mais.Todos os bancos estão ocupados.O único vazio é o que se encontra ao meu lado.O trem é escuro e está frio.As pessoas todas vestem roupas escuras :preta ou cinza.Inclusive eu.E estão todos chorando.Menos eu.Me inclino e abordo um senhor sentado à minha frente.Pergunto para onde o trem está indo,por que todos choram,o que está acontecendo.Todas as perguntas possíveis e nenhuma ao mesmo tempo,como uma criança curiosa.Ele não responde.Peço atenção,cutuco seu ombro.Ele não se vira.Explico minha situação,digo que não lembro de onde vim e gostaria de saber o que está acontecendo.Ele responde,em meio às lágrimas,com uma voz acariciada pela escuridão:”Quanto tempo é para sempre?Sempre.É desde então que estamos aqui.Desde sempre.E ,a menos que paremos de chorar,o trem não vai parar”.
O relato surreal ,por algum motivo desconhecido ,não me espanta.De alguma maneira me vejo dialogando dentro desta realidade sombria ,como se estivesse à par das circunstâncias.As perguntas racionais me fogem.”Como assim?Vocês não querem que o trem pare?”.Mas o velho não responde.Uma crescente tristeza começa a tomar conta de mim.Eu me levanto,suplicando:”Parem de chorar!Se todos pararem de chorar,o trem também parará e poderemos descer”.Ninguém parece me ouvir.Eles não vão parar de chorar.O trem não vai parar.Nunca.O pensamento é tão certo que me entristece.O trem não vai parar.Começo a me desesperar.”Parem de chorar!Parem de chorar!”,digo de joelhos,e começo a chorar.Choro por que minhas súplicas não são ouvidas.Choro por que não consigo chegar até o maquinista.Choro por que a tristeza é o único sentimento que possui voz neste lugar.Choro por que não tenho escolha.Choro por que o trem não vai parar. Seremos eternamente levados pelo trem da tristeza,recolhendo novas pessoas pelo caminho...como o homem que acaba de sentar no único banco que estava desocupado.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Ponto de vista

Eu gostava de ter os dois por perto. Ficávamos no quarto vendo tv com a luz apagada e mesmo que eu acabasse indo pro chão, eventualmente eu voltava pra cama, ao longo da noite. Era sempre muito divertido. Eles eram engraçados, os dois juntos. Na última vez que os vi, estavam discutindo a relação. Ela está agora há dois meses sem aparecer aqui no quarto. E ele não trouxe ninguém mais. É estranho. Dá pra sentir o que ele pensa. Acho que nunca mais vai querer outra pessoa. Vai ficar aqui debaixo, enquanto eu o abraço. Vai viver paralisado nesse sonho, nesse momento congelado com ela. Como um dia que não acaba. Eu queria poder falar com ele, mas infelizmente ninguém nunca presta atenção em um edredom.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Ponteiros....

Esse tempo...esse tempo que bate,que dilacera,que ensina.Pai paradoxal que não se faz visível aos olhos,apenas ao coração.Entidade de majestosa sabedoria e inquietantes preceitos.
Em nossa infinita pretensão ,tentamos aprisioná-lo nos ponteiros,interpretá-lo por entre dias,registrá-lo na escrita... inúteis idéias de confinamentos de sua transcendental existência.Matamos,pulamos,esperamos,torcemos,dobramos.Impomos inúmeros verbos de enorme pequenez para manter a ilusão de que controlamos os segundos.
Bendito daquele que confia no tempo e assimila suas lições .Bendito daquele que não chora pela pressa e nem cruza os braços por acomodação.Correto o homem que se mantém humilde ante o infinito infinito.Que morada abençoada teríamos se soubéssemos aproveitar as lições da história; da humanidade e da nossa própria.Se soubéssemos avaliar o dia de ontem e não cometer os erros hoje.Se o tempo fosse respeitado e valorizado,e aprendêssemos a colocar cada coisa no seu devido lugar apenas quando fosse chegada a hora.Se o tempo natural é flexível,por que também não o do homem? Qual o propósito da guilhotina dos minutos? Preencher um dia limitado?Por que não viver na elasticidade branda da natureza ?
O tempo é incógnito ,mas preciso.É veloz ,mas paciente.Machuca ,mas apazigua.Ver através do relógio é difícil.Aos seus escravos ( e não me excluo do grupo ) ,que vigiam os ponteiros com grande afã,eu pergunto : existe tempo depois que o relógio para?

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Os Lados conversavam...

Não me interessa a saúde.Essa saúde anêmica e branda que espalha o pólen virulento por sobre as cabeças no chão.Escolho o câncer;o cólera.Sou o avesso,exposto e concebido enfermo da nova era.Modernidades me excluem.Faço escárnio da banalidade e de todo o seu público.Perfuro olho vigilante com golpes de lança e me afogo em ondas de sangue.Procuro o opaco e insípido,tudo o que for feio e negligenciado.Faço o contrário,expulso de mim a hipocrisia conveniente.Sou feio,chato,grosso.Bebo o veneno dos cantos,respiro o pó esquecido,como as larvas que permeiam os dias.Aplaudo a carne podre e celebro o movimento repetido.Vivo a fraude,a sonegação; exibo o nervo exposto.Quem dentre nós,cosmos,vai fazer a notória diferença?Avaliem-se como se não se conhecessem.




Não ouso retirar os pingos de verdade de tua língua,mas me protejo contra as destiladas do veneno.Os lados que negligencias permeiam por entre os dias,apenas com menos visibilidade,não por serem menores,mas por causa da natureza torpe do homem.Eu sou a perspectiva sadia,limpa de todos os conceitos mundanos de liberdade,justiça e igualdade.Eu sou a pureza da raiz,a cristalina verdade do início dos tempos.Eu sou as cores primordias do dia e das emoções.Eu me estico por entre as veredas para abrir os olhos alheios à única verdade.Eu bebo a água azul,respiro as flores e as peles,ingiro as risadas e abraços.Reverencio o tempo e suas imposições benéficas,manifesto paciência durante as crises,abraço tanto a noite quanto o dia.Nesta casa não falta amor,nem alimento;essa é uma falha hominídea,que ainda pode ser resgatada.Eu sou a consciência do aprendizado resignado através da dor.Eu sou a nova hora que não teme a anti-vida.Eu emito a luz e represento o zelo no fim do túnel.Eu sou a esperança.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

É à meia-noite que as coisas pioram. Na verdade, entre meia –noite e uma da manhã. Hora das Bruxas. E você pode vê-las do lado de fora do seu quarto, se quiser. Também têm os canalhas nos cantos do teto fazendo barulho, não deixando você dormir. Às vezes, você não os vê, mas não se engane, eles estão lá. Ah, se estão. Esperando você abrir aquela brecha. Aquele momento estranho do qual você não tem controle. Entre o mundo dos acordados e o reino das pessoas dormindo. É nessa hora que eles entram na sua cabeça e fazem o que querem. Fazem a festa. Brincam com os seus pensamentos e expõe o seu medo. E você não tem controle algum. Você está acordado mas não pode se mexer e nem gritar. Eventualmente termina, depois de muito sufoco. Mas você vai ter de voltar a dormir. Boa noite.